Brasil Do SiNazi à UnBranca: uma excursão pela Brasília racista

Do SiNazi à UnBranca: uma excursão pela Brasília racista

29/11/2013 02h16

Nunca me esqueço de quando entrei numa ala do CAJE pela primeira vez, assim que comecei a trabalhar ali. Era para os garotos estarem nos quartos (que na verdade são celas), mas eles estavam saindo para ir à escola. Então eu dobrei à direita e eles estavam ali, parados em fila na esquina do módulo. Sem querer dei de cara com eles, e senti uma coisa estranhíssima. Um susto, um assombro. E segundos depois eu tive claro pra mim: naquele instante em que os vi, foi como se eu visse a mim mesmo ali dentro. Preso. De mãos para trás e cabeça baixa. Um adolescente pardo, ou seja, negro, magro, cabeça raspada e chinelo, multiplicado por mil. Senti que escapei de uma grande armadilha, mas que vários iguais a mim não tiveram a mesma sorte. E senti uma tristeza profunda, tão profunda que dava a entender que o fato de eu ter me livrado daquilo não me livrava o suficiente. Aqueles espelhos de mim estavam presos ali, e era como se parte de mim estivesse ali, presa também.

Para quem não conhece, o CAJE de Brasília é tipo a antiga Febem de São Paulo. É uma instituição que faz parte do SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo) para adolescentes privados de liberdade por terem violado a lei. E o Caje é assim, uma pequena nação de meninos, quase todos pardos, ou qualquer coisa que seja impura o bastante para ser negra, mas negra demais para ser branca, e que nos dê o direito de tratá-los como lixo. E é bom que sejam apenas moreninhos, porque se forem mesmo negros, aí estaremos sendo racistas. É bom que se olhem no espelho e não vejam reflexo algum. Mas para quem quer entender o porquê de pardos serem considerados negros pelo IBGE, IPEA, etc, é só dar uma chegadinha no Caje. De quebra, você vai sair de lá entendendo na prática o que é aquela tal 'baboseira' de criminalização da juventude negra.

O fato é que saí de lá um dia desses após o expediente e fui procurar um lugar para ler e escrever à vontade. Resolvi ir para a biblioteca da UnB, um espaço aberto ao público na Asa Norte, onde universitários e concurseiros lotam as diversas alas de estudo todos os dias. E eis que eu estava lendo meu livro sossegadamente, quando passou por mim uma moça que me chamou a atenção. Pele morena, traços fortes, vestia uma bata colorida e tinha os cabelos brilhosos, armados, tão lindos como uma arquitetura de Niemeyer, na vida em que fôra africano. Confesso que desconcentrei da leitura. A meina passou eu a segui com os olhos. Quando ela sentou na sua mesa, distante da minha, olhei ao redor as pessoas e tive um espanto: era como se não houvesse negros naquele salão. Olhei, reparei, desacreditei, e num cálculo grosseiro que fiz em minutos, contei que havia umas 250 pessoas naquele salão enorme. Passei a contar quantos negros (ou seja, não apenas pretos, mas pardos também, conforme os institutos de pesquisa) havia naquele lugar. Eu não consegui contar cinquenta. Achei absurdo. Sou míope, estava sem óculos, e aquelas cabeças e troncos borrados, sentados um do lado do outro pareciam para mim um imenso lençol branco ou creme estendido nas mesas da sala. Esqueci a menina, esqueci a leitura, e passei a contar as pessoas que entravam e saíam. Era fim de tarde e o fluxo era grande. A coisa parecia um pesadelo: se entrava um grupo de cinco, era difícil achar um negro que fosse. Se o grupo era de dez, três negros era algo que beirava o impossível. Me senti um intruso naquele lugar. Logo naquele lugar que foi tão meu por quase uma década. Pensei: mas e o resultado das cotas raciais na UnB? Mas e a ascensão dos mais pobres à classe média? Mas, mas... pessoas entravam, pessoas saíam, e eu só via números estatísticos a se repetirem.

Fiz esse mesmo roteiro alguns outros dias. Estava menos paranoico, mas o padrão era o mesmo sempre. Do Caje à UnB. Menos de 10 quilômetros de um lugar ao outro, e era como sair de um continente a outro, de uma Brasília a outra, cada uma para a sua respectiva raça, com as devidas exceções, ou margens de erro, como acharem melhor.

Recentemente, entrou em tramitação o projeto de lei que estabelece cotas para negros no serviço público federal. O projeto estabelece que 20% das vagas sejam reservadas para negros. Para conseguir a vaga, o candidato negro precisa ser devidamente aprovado nas etapas do concurso. Para evitar fraudes, pode ser criada uma etapa final, na qual o candidato será visualmente avaliado por uma banca – e será a primeira vez que um negro passará por uma banca de reconhecimento visual que não seja para ser incriminado, para ser motivo de chacota, ou para perder sua vaga na 'entrevista' de emprego por não ser de “boa aparência”. Concurseiros de todo o país se levantaram de suas poltronas de privilégios para questionar o projeto. Lutam contra o racismo, eles dizem. E o racismo, no caso, seria destinar 20% das vagas públicas para os negros. Afinal, concorrer por apenas 80% das vagas é um tremendo racismo. E por que reservar vagas para um segmento da população, se brancos e negros sempre tiveram oportunidades iguais desde sempre, e sempre foram tratados da mesma forma, pois no Brasil não se discrimina ninguém por causa da pele, cabelos, narizes e lábios, não é? Tentam, ainda, invalidar a intenção do projeto afirmando que não existe raça ou racismo num país como o nosso. Eu poderia explicar com palavras, pesquisas e dados, mas não. Em caso de dúvidas, faça um tour pelas celas do Caje, depois passe uma tarde nas salas de estudos da UnB. Não tem erro.

Leonardo Ortegal é assistente social, mestre em política social pela UnB e escreve para O MIRACULOSO.

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