Brasil O RACISMO À BRASILEIRA

O RACISMO À BRASILEIRA

13/05/2014 12h49

O Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo, 13 de maio, marcado historicamente como a data em que o Brasil libertou seus escravos é dia de luta e resistência da população negra brasileira continuamente considerada como de segunda classe. O racismo constantemente denunciado pelos movimentos negros permanece, ora como fenômeno devastador, às vezes praticado nas entrelinhas na sociedade brasileira que refuta sua condição de racista.

No entanto, a máscara que esconde o racismo, forjada em torno de uma democracia racial jamais vivenciada no país, vem perdendo a sua vitalidade por meio de inúmeros casos noticiados pelas redes sociais e pela mídia em geral. O corpo negro ainda é para os brasileiros, um corpo estranho, indesejado e considerado de menos valia.

A auxiliar de serviços gerais Claudia Silva Ferreira foi baleada e morta em meio a uma operação da polícia militar, na manhã de 16/3/2014, no morro da Congonha na zona norte do Rio de Janeiro. Claudia foi colocada no porta-malas do carro da polícia para ser levada ao hospital e na estrada Intendente Magalhães seu corpo aparentemente sem vida rolou, preso por um pedaço de roupa, foi arrastado pelo asfalto por pelos menos 250 metros sem que os policiais dessem atenção aos apelos dos outros motoristas e pedestres que tentavam alertá-los.

O exemplo ratifica a desumanização da mulher negra, coisificada e tratada como objeto. A auxiliar de serviços não foi tratada como cidadã e/ou alguém possuidora de direitos. Coisas são arrastadas, quebradas e muitas vezes descartadas sem o mínimo cuidado e foi assim com mais um corpo negro, concebido dentro de uma lógica de menor valor.

Vinicius Romão de Souza, ator e psicólogo, foi preso injustamente por 16 dias após ser confundido com um ladrão que roubou a bolsa de uma mulher no Rio de Janeiro. A vítima foi assaltada por uma pessoa negra e o primeiro corpo negro que apareceu foi acusado como meliante.

Os exemplos acima configuram o racismo institucional que ocorre quando a ação e organização do Estado operam de forma a induzir, manter e condicionar políticas públicas produzindo e reproduzindo a hierarquia racial. É imperioso ressaltar os “autos de resistência”, que é resistência seguida de morte. Em 2011, 42% das mortes que foram registradas como autos de resistência nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, aconteceram, em sua maioria, contra jovens negros.

O árbitro Márcio Chagas da Silva do Esportivo – time gaúcho de Bento Gonçalves foi agredido por cerca de 20 torcedores que xingaram: “macaco”, “negrão imundo” e “vagabundo” em uma partida entre o Esportivo e Veranópolis dia 5/3/2014. Ao chegar no estacionamento privativo do estádio encontrou seu carro coberto de cascas de bananas. No dia seguinte o volante Arouca, camisa 5 do Santos, foi chamado de “macaco” por um torcedor enquanto concedia entrevistas.

Atitudes racistas, como estas, têm sido frequentes nos estádios brasileiros. Os jogadores vítimas de agressões verbais e não-verbais resolveram quebrar a barreira do silêncio e manifestar o descontentamento e o constrangimento frente a essas atitudes.

Nesse sistema de dominação branco não há espaço para corpos negros; ocorre uma eliminação de sua presença, seu significado e suas imagens; fato que contribui para a destruição da personalidade dos negros. O árbitro Márcio Chagas abandonou a arbitragem dias depois afirmando que ser vítima de racismo tinha pesado na sua decisão de deixar os campos de futebol. O racismo impacta a vida de suas vítimas, no entanto, este sofrimento ainda não foi devidamente mensurado pela ciência do comportamento.

Recentemente o integrante da seleção brasileira Daniel Alves foi alvo de racismo quando atiraram uma banana em campo. Ele comeu a fruta atirada, prosseguindo o jogo como se nada tivesse acontecido. E não demorou até que uma campanha protagonizada pelo jogador Neymar: “Somos todos macacos”, incendiasse as redes sociais.

A campanha não foi bem recebida pelos que lutam contra o racismo. O cineasta Joel Zito que dirigiu o filme “Negação do Brasil”, que trata da representação dos negros na mídia, avalia a campanha como um equívoco, por esconder a negritude e não ser capaz de enfrentar o racismo.

O assunto que era para ser discutido seriamente tomou outras dimensões. Artistas da TV brasileira que nunca se preocuparam em discutir o tema, haja vista a mídia televisionada do país em que as novelas e programas de TV, são protagonizados majoritariamente por pessoas brancas, se arvoraram em suposta defesa dos oprimidos.

Os negros têm lugares bem demarcados na sociedade brasileira - apartheid social. Nesse sentido, a ausência dos corpos negros nos espaços de visibilidade e poder são considerados como algo normal. Ninguém questiona o fato de entre 510 deputados apenas 8% serem negros de no Senado Federal, apenas um senador declarar-se negro, e entre os Ministros de Estados, apenas a Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR/PR.

O racismo à brasileira é constantemente reinventado, ratificado e defendido de todas as formas. Observo que fatos como estes que vem ocorrendo dentro e fora de campo apresentam-se como oportunidades para o país sair da posição confortável do silêncio. As relações raciais são um desafio que demanda processo contínuo de negociação.

por Márcia Maria da Silva, Psicóloga e Servidora Pública para O MIRACULOSO

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