Brasil Mulher Negra e seus Afetos

Mulher Negra e seus Afetos

25/07/2014 11h11

Foi instituído o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra – 25 de julho - pela Lei n 12.987, de 2/6/14. Tereza de Benguela foi uma liderança quilombola que viveu no século XVIII, mulher de José Piolho, Benguela assumiu o comando político, econômico e administrativo da comunidade após a morte do marido. Nesse aspecto, este texto traz algumas reflexões sobre a afetividade da população negra especificamente, mulheres negras.

O país apresenta avanços nas políticas destinadas à população negra como a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR/PR, em 2003, e o Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, com a finalidade de garantir à população negra igualdade de oportunidades, defesa dos direitos étnicos individuais e o combate a discriminação. Contudo, o fato é que, as mulheres negras tem os piores indicadores de saúde, doença, cuidados, morte, além dos piores índices econômicos.

A afetividade das mulheres negras é assunto tabu até mesmo entre elas, silenciadas em suas dores, consideradas constantemente antimusas da sociedade brasileira e que acabam negligenciadas em seus afetos. Essa é a herança da escravidão que fez da população negra, em especial as mulheres, objetos a serem manipulados, julgados e sentenciados por outros.

Bell Hooks (2006) em seu texto “Vivendo de Amor” expõe as dificuldades das mulheres negras quanto aos afetos:

Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma das verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.

A afetividade de mulheres e homens negros necessita de atenção, cuidados, estudos e ampla discussão, pelos negros, pela sociedade e por estudiosos em geral. O período escravocrata impactou o desenvolvimento econômico, intelectual, psíquico e emocional dessa população. Assim, mulheres e homens negros descobrem o tempo todo as suas dificuldades de dar e receber amor.

Nesse aspecto, as teorias psicológicas não contemplam a diversidade humana. No entanto, todas elas a partir dos pressupostos adotados ressaltam a importância do acolhimento do meio social e familiar dos indivíduos, para que eles possam desenvolver em sua plenitude.

As mulheres negras tiveram toda uma história de violência. No período da escravidão eram objetos sexuais disponíveis aos Senhores donos de engenho, sem direito a escolher um companheiro. Também não eram as mães de seus filhos, pois além dos trabalhos árduos eram damas de leite das sinhazinhas, portanto não tinham uma estrutura familiar.

O tempo passou e essas mulheres continuam sendo violentadas, hostilizadas e desconsideradas, portanto comprometidas afetivamente, afinal amar é um luxo o qual, segundo a supremacia dos brancos não é para mulheres negras. Expostas constantemente a beleza padrão europeu são invisíveis aos homens brancos e negros. Elas continuam em sua maioria como domésticas cuidando do lar alheio sem condições de construir as suas próprias histórias.

O corpo da mulher negra, marca indelével de sua satisfação, traz já inerente a marca do indesejável e irreconhecível (Prestes, 2014), portanto objeto de menor valor. Assim, essas mulheres em sua maioria sentem vergonha de si mesmas, tem baixa autoestima e carregam consigo que ser boa não é suficiente. Não contam com uma estética direcionada a cor da sua pele e aos cabelos crespos sempre rejeitados nos espaços sociais.

Essas colocações às vezes chocam quem as ouve, pois crêem serem exageradas Exemplificando essa fala, cito o programa Menina Fantástica da Rede Globo realizado anualmente. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, os negros totalizam 51% da população brasileira, no entanto 90% das meninas escolhidas para o programa são loiras e sempre as vencedoras. Nesse sentido, sempre penso nas milhares de adolescentes negras deste país violentadas em seus corpos e renegadas em sua estética.

Expostas constantemente a beleza padrão europeu, não são vislumbradas como objetos de amor. Verifica-se a necessidade de um encontro entre homens e mulheres negras onde seja trabalhada a autoestima e resgatada as suas identidades pelo processo histórico negado e falsificado pela cultura. (Munanga, 2010).

Relacionar-se, amar, encontrar um outro a fim de construir uma história - é fundamental na vida das pessoas - e são desejos e necessidades do ser humano. Mulheres e homens negros, índios, e população de Lésbicas, gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Transgêneros – LGBTT desejam curar as suas dores e ressignificar as suas vidas.

Para que tal ocorra é preciso que haja visibilidade para corpos diversificados nessa sociedade plural que insiste em ser singular. Os papeis e as representações relativas às mulheres negras precisam ser redefinidos. E nós mulheres negras precisamos nos apropriar de que também nascemos para amar e sermos amadas em toda a plenitude.

por Marcia Maria da Silva – Psicóloga e servidora pública, para O MIRACULOSO

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