Brasil #COTAS RACIAIS SIM!

#COTAS RACIAIS SIM!

20/05/2016 20h01

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, durante quase três séculos e meio as pessoas negras foram traficadas e escravizadas, portanto ao analisar esta população na sociedade brasileira é necessário relembrar o período escravocrata e a forma como se deu a liberdade. O art. 1º da Lei nº 3.353, de 13/5/1988, evidenciou “É declarada extincta a escravidão no Brasil”. Ponto, nenhum trabalho de reinserção ou projeto de inclusão dessas pessoas à sociedade.

Assim, os negros ou continuaram nas fazendas ou partiram para as periferias das grandes cidades de onde nunca mais saíram. A escravidão roubou esperanças, cortou laços familiares e religiosos e jaz na psique de brancos e não-brancos por meio de ações normativas que recriam as mesmas situações de poder e submissão daquele período.

Colocados à disposição de um mercado de trabalho fictício 700 mil negros, largados à própria sorte, passaram a viver de pequenos bicos, situação econômica que se perpetuou no tempo. Nesse aspecto, houve pouco ou quase nada de investimentos em educação, portanto os negros quando partem para o mercado de trabalho estão longe de ser vistos como o protótipo dos mais capacitados, tanto pela herança capital-social quanto pelo racismo praticado nas entrelinhas.

Acrescente-se a esses fatores as dificuldades das crianças negras com o ensino ministrado e o próprio ambiente escolar. Esses locais, além de não privilegiar as crianças negras, pois apresentam um ambiente hostil de negação da cor negra, como também desvalorizam o ensino da África e as contribuições daquele país para o Brasil, portanto são crianças que não se veem representadas nem no discurso e tampouco nas representações.

Segundo pesquisa citada, por Regina Dalcastagnè (2012), os romances publicados pelas principais editoras brasileiras, em um período de quinze anos (1990 – 2004), 93,9% dos autores eram homens brancos. Nesses livros, as mulheres brancas aparecem como donas de casa enquanto as negras como empregadas domésticas ou prostitutas, os homens brancos como bem-sucedidos e os negros como bandidos.

Os meios de comunicação (rádio, revistas, jornais, literatura, TV) têm a visão da elite, representam prioritariamente pessoas brancas e trabalham arduamente em função dessa sociedade dominante. Em todas as áreas de comunicação social o negro aparece como indivíduo não-pensante. Essas concepções sobre o que é o negro acabam introjetadas pela população negra que não conseguiu, ainda, construir uma identidade racial.

Nesse sentido, a população negra vive dentro de um círculo vicioso que segundo Santos (2000) começa com a forma como se deu a Abolição, que resultou em piores empregos e salários (dificuldades econômicas); dificuldades educacionais (modestas condições de investir na capacitação) o que gera desmotivação. Segue com a incapacidade de modificação desse status pelo discurso racial, a não-identidade racial, introjeção de racismo e preconceitos e a repressão policial e culmina com a visão de que não-brancos são incapazes por natureza.

Essa é a realidade construída desde que os negros aqui chegaram. É fato que estas pessoas sempre tiveram mais dificuldades de acesso a bens e serviços. Nesse aspecto, as cotas aparecem como um instrumento de igualação de oportunidades, de minimização das disparidades raciais considerando que a pobreza é negra, a indigência é negra e os piores postos de trabalhos estão ocupados pelas pessoas negras.

Assim, é imperioso considerar que cotas, lembram automaticamente as universidades, pois é o conhecimento que fundamenta e habilita o indivíduo a exercer qualquer que seja a atividade, nesse contexto o acesso da população negra a determinados cursos de formação possibilitará o acesso a profissões que historicamente vem sendo exercidas por pessoas brancas, e aqui poderia citar uma gama de exemplos, portanto a cobiça pelas vagas colocou de um lado o movimento negro e do outro a elite tradicional que se sente ameaçada de perder seu status quo.

Segundo Menezes (2001) as ações afirmativas designam um conjunto de estratégias, inciativas ou políticas que tem por finalidade favorecer grupos ou segmentos sociais que se encontram em piores condições de competição, sejam elas, presentes ou passadas e/ou medidas especiais que buscam eliminar os desequilíbrios existentes entre determinadas categorias sociais.

Apesar disso, essas iniciativas estão longe de ser consenso dentro do governo e na sociedade em geral. De forma irrefletida e sem conhecer de fato os problemas raciais documentados fartamente por institutos oficiais de pesquisa do governo muitos alegam que esse sistema esbarra na meritocracia.

Conquanto, verifica-se que a sociedade brasileira não manifesta minimamente a cordialidade que deseja ostentar, porque por mais que não se aproprie de dados dos institutos de pesquisa sobre as desigualdades raciais, assistem uma TV europeia, manuseia livros e revistas onde consta primariamente pessoas brancas, mesmo sabendo que os negros são 53% da população brasileira.

Seguindo este raciocínio, o país apesar de alardear ser um Estado Democrático de Direitos exibe um Congresso Nacional em que apenas 15% se declaram pardos e 3,5%, pretos; em que as mulheres somam 10%, da Câmara dos Deputados, não obstante 1,6% se declaram pardas e 0,6%, pretas. Os cargos executivos do país 94,2% são ocupados por pessoas brancas, e atualmente os Ministros de Estados são 100% brancos.

Os que se colocam contrários as cotas, entre outros sentimentos, expressam o racismo que acalentam, pois para a maioria dos brasileiros o corpo negro continua sendo o corpo escravo, sem direitos, sem possibilidades e sem alma. Assim, acostumaram com os lixeiros, os catadores, os pedintes na rua, as empregadas domésticas; negras/os; e advogados, psicólogos, médicos, senadores, brancas/os, numa configuração clara de um apartheid social.

Aos Movimentos Negros restam o cansaço de uma luta que parece inglória, pois as ações afirmativas, apesar de significativas no cenário nacional, ainda, não lograram acabar com a discriminação e nem propiciaram a igualdade de direitos, considerando que intensas desigualdades ainda persistem.

Por fim, cabe pontuar que as cotas não são ofertadas gratuitamente como o são outras políticas governamentais. Alguém para entrar numa universidade concorre a um sistema diferenciado, no entanto, faz provas estuda e procura manter-se muitas vezes a duras penas no curso escolhido.

E passar num concurso público é apenas um primeiro passo de uma briga com gigantes, pois a brancura eurocentrista foi construída com tal solidez, tanto quanto é defendida e reforçada, que reina silenciosa e absoluta. Assim, o negro na administração Pública, mesmo formado pela Universidade de Harvard, dificilmente será promovido ou reconhecido pelas funções exercidas.

por MARCIA MARIA DA SILVA, Psicóloga e Servidora pública, para O MIRACULOSO

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