Brasil CHARLOTTESVILLE (EUA)

CHARLOTTESVILLE (EUA)

25/08/2017 01h46

Em 21 de março de 1960, ocorreu em Sharpeville, África do Sul, um protesto realizado pelo Congresso Pan-Africano, contra a Lei do Passe, documento que cerceava a locomoção da população negra naquele país. Seguindo o Apartheid, regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994, a polícia sul-africana, abriu fogo sobre a multidão desarmada deixando 69 mortos e dezenas de feridos.

O massacre de Sharpeville foi um divisor de águas na história daquele país, e porque não dizer em vários países do mundo, considerando que acirrou os ânimos entre negros e brancos e contribuiu para uma reação mundial em desfavor ao regime adotado na África do Sul, por meio de sanções políticas.

Desde então, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) o dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, dia 21 de março, em memória ao massacre. Essas e outras iniciativas mundiais foram ratificadas para combater o racismo. Assim, há um ditado popular que diz que a humanidade dá dois passos à frente e dois atrás.

Certamente, o ocorrido em 11 de agosto de 2017, na cidade universitária de Charlottesville, no Estado Americano da Virginia (EUA) em que um protesto de supremacistas brancos deixaram 33 (trinta e três) pessoas feridas e uma morta, representa um retrocesso.

Na insurgência, centenas de homens e mulheres carregavam tochas, faziam saudações nazistas e gritavam palavras de ordem contra negros, imigrantes, homossexuais e judeus, além de gritar o slogam “Vidas Brancas Importam”, em contraposição ao movimento negro “Vidas Negras Importam” criado para conter a morte de negros por meio do racismo institucionalizado naquele país, principalmente o praticado por policiais.

Sakamoto (2017) em seu texto: “Marcha racista e neonazista nos EUA deve ter animado muita gente no Brasil”, declara que a marcha foi lá mas deve ter animado muita gente por aqui, considerando que no Brasil há um genocídio de jovens pobres e negros nas periferias das grandes cidades, assassinatos e espancamentos de homossexuais, preconceito contra migrantes, e citou outras discriminações, como o fato da mulher negra ganhar, em média, menos que o homem branco e a mulher branca.

Acrescente-se a esta abordagem, a violência praticada nas Comunidades Quilombolas. No município de Cavalcante, em Goiás, várias meninas entre 10 e 14 anos foram estupradas. Os autores vão de profissionais liberais a políticos influentes. Em 2015, cinco meninas da comunidade Kalunga, entre 13 e 15 anos, apareceram grávidas ao mesmo tempo.

Cabe pontuar, que os casos de abuso sexual são recorrentes naquela região e se tornaram públicos em abril de 2015, ocasião em que foram apurados 57 nascimentos de crianças em que todas as mães eram menores de 15 anos. Os casos mais graves envolviam o ex-prefeito da cidade, vereadores e membros do judiciário.

Essas ocorrências resultaram em várias reportagens que foram veiculadas em Goiás e no Brasil, inclusive uma da Rede Record que ganhou o prêmio nacional de jornalismo Vladimir Herzog, no entanto nada foi efetivamente feito, além de uma condenação aqui outra ali, em que os culpados continuam exercendo cargos públicos e recebendo salários de um Estado que deveria proteger as vítimas.

Seguramente, o silêncio e o descaso em relação a esses e outros crimes praticados contra a população negra no Brasil ratifica um estado omisso, conivente e complacente com as barbáries que já deveriam ter sido varridas desta nação. Nessa perspectiva, faço minhas as palavras de Sakamoto, tanto nos EUA quanto no Brasil é um insulto alguém dizer que brancos são vítimas de preconceito.

Sob outra perspectiva, são os corpos negros que são constantemente violentados, recusados em espaços sociais e colocados na posição de menos valia. Sim, vidas negras importam; Sim, não é mimimi é racismo e sim, continuaremos lutando.

E aí, basta lembrar, que o país está bem longe do que se configura uma verdadeira democracia. No congresso nacional a bancada federal é composta por 80% de homens brancos, 15,8% se declararam pardos e apenas 4% pretos. As mulheres são 10%, sendo que as pardas são 1.6% e negras 0,6%. Ausências declaradas de indígenas e quilombolas. Na esplanada dos Ministérios, apenas a Ministra dos Direitos Humanos se declara negra.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os pretos e pardos representam 53,6% da população brasileira. Onde está esse povo? Infelizmente, ainda nas favelas e periferias das grandes cidades, na pobreza e na indigência. Há um apartheid social, uma ausência da população negra dos lugares de visibilidade e poder, com a condescendência daqueles que administram e governam o país.

Por outro lado, nos EUA o Presidente Trump com seu comportamento questionável empodera esses manifestantes que renascem das cinzas de movimentos que pareciam exterminados como a Ku Klux Klan, instigando ódios que ultrapassam o bom senso; também no Brasil, Deputados como Bolsonaro, faz questão de destilar seu ódio contra negros com o apoio significativo de pessoas que comungam com seus ideais.

Foi assustador, no mínimo desalentador, acordar dia 12 de agosto de 2017, com inúmeras reportagens relatando esse episódio, que evidencia claramente a crise moral e ética dos povos. Falta palavras para descrever o sentimento que perpassa a alma e difícil imaginar para onde caminha a humanidade! Estados Unidos da América (EUA), Brasil e demais países vêm ratificando uma violência que está muito além, daquelas que constam no código penal como crimes abomináveis.

O desafio que se apresenta converge para o entendimento de que essas atitudes esquizofrênicas que tomaram conta do país e do mundo devem ser combatidas e refutadas com veemência, assim como os graves crimes de violações aos direitos humanos.

por MÁRCIA MARIA DA SILVA, psicóloga e servidora pública para O MIRACULOSO

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