Cultura Mirafilmes: A flor do deserto

Mirafilmes: A flor do deserto

09/01/2013 13h11

O filme Flor do Deserto foi baseado na história da ex-top model Somali Waris Dirie. Ela nasceu em uma família de criadores de gado nômades. Aos 13 anos, para fugir de um casamento com um sexagenário em troca de cinco camelos, ela atravessa o deserto sozinha até Mogadishu, capital do país, seguindo de lá para Londres.

Waris Dirie passa a adolescência apenas trabalhando de doméstica na casa da tia que era esposa do Embaixador da Somália e quase que reclusa não aprende a falar inglês. Após o término de uma guerra na Somália todos os embaixadores são convocados a retornar. Dirie foge para as ruas de Londres e ao perambular entre as araras de uma loja de departamento, conhece a vendedora Marilyn, que lhe garante um teto e sua amizade.

Com o auxilio de Marilyn, Waris conseguiu emprego como faxineira numa lanchonete, onde, enquanto limpava o chão e recolhia os restos de sandwiches das mesas, foi descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson. Após estudar a língua inglesa e ser alfabetizada, ela torna-se uma modelo internacional.

O filme foi dirigido pela Americana Sherry Harmann e protagonizado pala atriz e também modelo Liya Kebede que conseguiu conferir ao filme uma veracidade interessante. Hoje a ex-modelo é embaixadora especial da Organização das Nações Unidas – ONU e uma das principais defensoras da erradicação da circuncisão feminina.

Se no filme “Vênus Negra” observa-se uma mulher completamente alheia e entregue ao seu sofrimento, em “Flor do Deserto” Waris Dirie está determinada a lutar pela sua dignidade até o fm e profundamente imersa na análise da história de sua vida e da cultura do seu país, em que a mutilação genital feminina é conhecida vulgarmente por circuncisão feminina.

Nesse aspecto, ela revisita sua infância continuamente como que ávida por fazer as pazes com o seu passado para entender o presente e caminhar para o futuro. Segundo Freud (1923/1996), as percepções ocorridas na infância permanecem registradas no inconsciente e são decisivas na subjetividade da vida adulta do indivíduo. Assim, as imagens mentais do corpo são, portanto, formadas a partir de um mosaico de representações investidas afetivamente, ao longo do tempo, a partir da presença interiorizada do outro. Esse conjunto de imagens permite ao ser humano o sentido de existir e constitui a essência do eu.

A própria Waris Dirie - em seu discurso na ONU - expõe que de fato o resultado da mutilação feita nas mulheres ainda crianças, em seu país, abalam-nas profundamente tanto mental quanto fisicamente, pois a prática feita com facas, giletes e outros objetos cortantes sem a higiene adequada causam a morte de várias mulheres, inclusive ela narra que uma de suas irmãs sangrou até morrer.

Essas práticas, além de trazer danos físicos às mulheres deixam marcas indeléveis na psique. Segundo as famílias Somalis uma filha não circuncidada não é pura. Segundo Waris, se era tão doloroso ser uma mulher, ela preferia não ser. Lógico que essa questão teve repercussão em sua vida adulta, impedindo-a de ser uma mulher aberta a uma vida afetiva. Cabe observar suas dificuldades em aproximar-se de um paquera que ela conhece na boate e que ela só procura anos mais tarde.

No entanto, Waris Dirie não se manteve confusa e passiva frente a sua dor. Determinada atravessou sozinha o deserto para não se submeter a um casamento arranjado e consciente da barbárie da circuncisão passou a lutar pela sua erradicação. Quando a maioria dos filhos apenas repetem a história de vida dos pais e familiares, Waris Dirie teve a coragem de reescrever a sua história.

No auge da fama, Waris Dirie decidiu contar a sua verdadeira história, não da Top Model Internacional que fez fama, em Londres, mas da mulher que deseja que outras mulheres tenham uma vida afetiva plena. Assim, o tema central do filme é a mutilação genital por que passam as mulheres da Somália, um país em que a independência política só ocorreu no início dos anos 60, e que ainda tem índices de desenvolvimento social alarmantemente baixos.

A estimativa da Organização Mundial da Saúde – OMS é que de 100 a 140 milhões de meninas e mulheres vivem hoje sob as conseqüências da mutilação – a maioria na África. No entanto a ONU aprovou em 26 de novembro de 2012, Resolução que condena a circuncisão feminina e pede aos países que passem a orientar de forma educativa sobre a necessidade de acabar com essa prática. No entanto, é necessário fiscalizar, pois ao permitir que práticas cruéis perpetuem por serem tradição em determinadas culturas, o mundo se torna cúmplice dessa crueldade.

Freud (1929/2010) no texto “O mal-estar na cultura”, ressalta que a cultura é marcada pela violência e pela agressão que põe por água abaixo a visão humanista e iluminista do homem racional, no entanto, segundo ele, cabe a todos nós o aprimoramento da vida social, apesar do mal-estar que lhe é próprio.

A figura feminina é muito desrespeitada no mundo. No Brasil as mulheres negras são invisíveis, portanto ausentes dos espaços de visibilidade e poder e as mulheres brancas vítimas da ditadura da beleza, o que as leva não raras vezes ao leito de morte, na busca de um corpo perfeito.

As mulheres ainda vivem sob o jugo masculino à medida que aceitam imposições verbais e não-verbais, no entanto, Waris Dirie é um exemplo da possibilidade do feminino de ser o sujeito da sua história.

por Márcia Maria da Silva, Psicóloga e Servidora Pública para O MIRACULOSO

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