DF Natal, cidadania e esmolas

Natal, cidadania e esmolas

20/12/2012 19h28

Natal, cidadania e esmolas

Época de Natal é uma época curiosa. Evoca os espíritos mais capitalistas de consumo e desperdício, ao mesmo tempo que inspira uma atmosfera de reflexão e de compaixão entre as pessoas. Por causa de tudo isso, me parece oportuno trazer novamente esse texto que, sem dúvida alguma, é mais relevante agora do que em qualquer outra época do ano. Espero que gostem, que seja útil, e que todo mundo tenha um excelente natal.

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Você está passando na rua, a pé ou de carro, e de repente cruza com uma pessoa que te pede uma esmola. Afirmo sem medo de errar que todo mundo já passou por essa situação um dia. E é um enorme constrangimento. Qualquer um que não seja completamente ingênuo sempre cai naquele dilema: se eu não dou a esmola, posso estar deixando de fazer muita diferença na vida de alguém usando pouco dinheiro, mas se eu der, posso estar ajudando na verdade alguém a comprar cachaça e crack com esse dinheiro. E é num ir e vir infinito entre essas duas opções que às vezes damos ou não damos uns trocados, para a paz ou agonia das nossas consciências.

Lembro-me de quando eu era adolescente, e vi escrito num adesivo: "Não dê esmola. Dê cidadania". Era nos tempos do governo Cristovam. Aquela ideia nunca mais saiu da minha cabeça. Como dar cidadania em vez de esmola? Onde eu iria pegar a cidadania para entregar aos mendigos das ruas? Sinceramente, eu não tinha a menor ideia do que significava essa troca, e passei anos mais ou menos da mesma forma, até que comecei a faculdade de Serviço Social. E, pensando que esse é um caso tão corriqueiro e que incomoda a tanta gente, eu resolvi trazer alguma contribuição de utilidade pública escrevendo esse texto.

Bom, acho que vale a pena situar um pouquinho que esse fato de existirem pessoas morando ou pedindo nas ruas não veio do nada. No nosso país, isso é um reflexo do modo como foram tratados os escravos depois da abolição: dos que foram realmente liberados da escravidão, a grande maioria ficou ao relento, sobrevivendo do jeito que dava, quando dava. Outra parte dessa população passou por situações difíceis de segurar, e acabaram dessa forma. Loucos, deficientes, desesperados, viciados, vítimas de fatalidades... pessoas que não recebem do Estado a assistência devida e necessária, e acabam nessa situação limite. Nas ruas.

É importante ter em mente as origens dessas situações, pois passa por elas a solução do problema. E passa por elas também a resposta para uma postura consciente, no momento em que estamos frente a frente com essa situação. O Brasil é um país acostumado a essa coisa de pedir e receber esmolas. Em várias esferas desse país, o que define o estado das coisas não é o mérito ou o direito, mas a arte de pedir do jeito certo, na hora certa, e oferecer dádivas e esmolas com bastante estratégia. Mendigar e salvar com esmolas é uma relação realmente impregnada no dia a dia do brasileiro.

Agora, voltando para a questão prática, o que você deve fazer quando alguém te pedir uma ajuda na rua? A resposta que dou é: não sei. Não posso dizer a ninguém, nem com mil argumentos, que se deve negar uma esmola a alguém se o coração estiver te mandando entregar. A primeira solução para esse – e pra todos os males do mundo – tem a ver com amor, compaixão, e desejo de fazer o bem para o outro. Não é a ciência. Mas no restante dos casos, podemos ir eliminando problemas: não dar o dinheiro, mas dar aquilo que a pessoa diz estar precisando na hora é uma opção. Geralmente são roupas, cobertas ou comida. Infelizmente eu já vi gente pegando alimento e vendendo em vez de comer, mas é bem mais fácil alguém trocar dinheiro por droga do que qualquer outra coisa. A questão é que, mesmo entregando a comida ou a roupa, isso passa para a pessoa a mensagem de que ela pode ficar 'acomodada' naquela situação, pois poderá sempre contar com alguém que dará a ela o que ela necessitar.

No fim das contas, o ideal continua sendo oferecer cidadania e não esmolas. E para quem quiser trocar um pelo outro, eu indico um caminho possível. É fato que, se ninguém desse esmolas pela rua, não teria ninguém pedindo. Poderia até ter mais gente roubando, mas não teria gente pedindo. Então, não dar esmolas pode ser um primeiro passo. E o segundo passo, dar cidadania, pode vir por meio do apoio a organizações sérias, dispostas a fazer um trabalho mais amplo e continuado com as pessoas do que simplesmente uma ajudinha. Pode ser uma ONG, ou pode ser o Estado, que também aceita doações, além dos impostos.

Separar uma quantia mensal para isso ao invés de esmolas com certeza fará diferença no trabalho de uma instituição. Recomendo ir além: você pode acompanhar o trabalho realizado de perto, visitando o lugar, e se quiser ir ainda mais longe, você pode arregaçar as mangas e trabalhar de alguma forma. Sempre precisa de gente. E para ter mais certeza de que o trabalho dessa instituição é sério, algumas coisas são importantes: conhecer a equipe. Só boa vontade não basta, tem que ter gente profissional para que o trabalho seja de promover cidadania de fato. Além disso, é preciso saber se a instituição possui CNPJ (ou se está centralizada em uma pessoa física, o que gera desconfiança), se ela possui os certificados de utilidade pública federal, e se está registrada nos conselhos de direitos (como o Conselho de Assistência Social, por exemplo), que são os órgãos que certificam que aquela instituição está de acordo com as políticas sociais adotadas pelo país. Aproveite o seu desejo de ajudar, pegue essas dicas, e faça com ele algo mais produtivo do que dar esmolas.

P.S.: Se alguém tiver interesse, posso indicar instiuições que conheço pessoalmente e cujo trabalho é realizado com seriedade e compromisso. Envie um email para ensejo@gmail.com

Leonardo Ortegal é assistente social, mestre em política social e colunista do Jornal O MIRACULOSO

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