Mundo Sobre qualquer coisa que não seja a canela de Anderson Silva

Sobre qualquer coisa que não seja a canela de Anderson Silva

30/12/2013 13h13

Isso não é um texto sobre MMA. Ontem Anderson Silva perdeu para si mesmo novamente em uma luta contra Chris Weidman. E a minha tristeza com esse fato foi tamanha, que escrevo um texto pra tentar lidar melhor com tudo isso. Eu sei que tenho o azar (ou a glória) de me entristecer com coisas que para muitos passam batidas. Mas parte da minha tristeza eu sei explicar. Na realidade, não foi só Anderson que perdeu, nem foi só Weidman que ganhou. Havia tantas coisas em jogo ali que é difícil elencar em um texto só. Mas o sorriso de Weidman é uma pista. Seu protetor bucal com a bandeira americana, e a bandeira que usou do início ao fim, mais até do que a camisa com seus patrocinadores não foram à toa. Na noite de ontem prevaleceu o soldadinho do warfare capitalista americano, ante a lenda improvável de um negrinho teimoso que questiona a verdade do sistema em que vivemos.

O problema de ontem não foi o acidente de Anderson. O problema é que, por causa do acidente, o falso-bom-mocinho americano de estilo de luta enfadonho subiu nas costas do legado de um gigante. Daquele que, no melhor estilo favela, “brincou no precipício, no fio da navalha” (como diria Criolo), e fez uma história incomparável no mundo das lutas. Tal qual o mérito de um rei branco que se assenta em um trono adornado, em um palácio exuberante construído por escravos, esse é o mérito de Weidman sobre o cinturão dos pesos médios que ostentou sobre seus ombros na noite de ontem. Cinturão esse que, graças aos feitos de Anderson Silva, é um cinturão que não se compara a nenhum outro do UFC.

Anderson Silva carrega o improvável, e enfia goela abaixo o racismo, a xenofobia, e todos os preconceitos sofridos por todos os países latinos e todos os brasileiros pobres, nascidos em condições desiguais de oportunidades, e que veem um espelho em Anderson e em outros que, como Anderson, deram falha no sistema. Tomaram de assalto os trouféus, os palcos, os diplomas, as canetas, as prateleiras das livrarias e tudo mais que a senzala do mundo não tem por herança maldita. A matemática capitalista em que 'tempo disponível, mais recursos materiais, estrutura e poder financeiro é igual a vitória' foi feita de ridícula inúmeras vezes ao longo da história. E Anderson é só mais um grande maestro dessa grande canção de deboche. O negrinho que foi produzido pra fritar Big Macs pros boys de Curitiba até que aceitou esse posto, mas fez dele um degrau para sua caminhada de contrariar o sistema.

É claro que o sistema não é idiota, e se Anderson o contrariou ao recusar o posto de fritar hambúrgueres, para servir o prato amargo de ser campeão ao desgosto, o sistema dá um jeito de fazê-lo virar o garoto propaganda da empresa de hambúrguer rival. O mundo em que vivemos é sujo, e sujos nós estaremos enquanto o sistema for esse. Mas quando Cain Velasquez nocauteou o monstro de laboratório americano Brock Lesnar, jogando por terra o modelo Van Damme/Schwarzenegger, Cain pegou com humildade e seriedade o cinturão e, no meio da entrevista que concedia em inglês, bradou em um espanhol de imigrante ilegal: “A todos los latinos, We did it!!”, mostrando que sua vitória era uma vitória de todos os imigrantes latinos, que sustentam nas costas um país que sequer os acolhe, e mais do que isso, de todos os latino-americanos, que foram e são os pilares que tornam esse mundo de privilégios dos países ricos possível. E acredito que todos os que se olham no espelho e entendem o que é ser 'latinos' entenderam e sentiram o grito de Cain.

Infelizmente, o ser 'brasileiros' é algo que acontece diferente. E a odisseia de Anderson Silva no UFC fala mais sobre ser brasileiro do que qualquer outra coisa. E não falo daquele moderno clichê de “não desisto nunca”. A identidade do “ser brasileiro” vai muito além disso. Tem a ver com um sentimento enraizado de que só temos bananas, de que somos macacos, de que somos palhaços, de que somos um povo rebaixado, de que somos piores... e de que só conseguimos vencer pelo esporte. Só que um povo que só sabe se orgulhar quando vence no esporte é um povo com uma autoestima frágil demais. Por isso, quando Anderson Silva, que nem tinha muito tempo que foi entronizado como um heroi da nação, foi visto sendo nocauteado há seis meses atrás, em questão de minutos virou o motivo de todo o repúdio por parte de muitos que o idolatravam por todas as performances igualmente arriscadas que fez antes. O medo de dividir a derrota com quem sempre dedicou ao seu povo as vitórias que teve, e de ser contaminado com essa coisa suja que é falhar é algo tão forte, que é melhor deixá-lo que amargue sozinho. Nessa hora sombria, Anderson e nós não somos mais parte do mesmo Brasil. Mas quando o legendário Silva põe seus medos à prova, renasce das cinzas, aceita a revanche, e é favorito nas casas de aposta, estamos com ele de novo. “Vai lá, Anderson! Mostra pros gringos o que é o Brasil”! Mas se a luta se encerra do jeito que foi, e está consumado que Anderson não é nosso heroi imaculado, ainda que tenha lutado com garra e com seriedade, não vamos abandoná-lo. Ao contrário, vamo estar bem próximos dele, e nos fazer valer da nossa identidade. Como bons palhaços (amedrontados por dentro) que somos, vamos correr para o computador, logo após a derrota de nosso mais novo ex-ídolo, para fazermos os gifs e memes de maior mau gosto possível, pois, afinal de contas, o Brasil e a dor de um dos seus não são mais que uma grande razão para piadas.

Pra não dizer que não falei da canela, Anderson Silva deu um chute tão forte na vontade de vencer que acabou quebrando a dele. Mas foi operado e está bem. E mesmo internado e em meio a uma enxurrada de chacotas e piadas doentis, Anderson Silva ainda se importa em pedir as desculpas de seus compatriotas. Anderson vai se recuperar, e se voltar mesmo aos ringues, será apenas para provar o que ainda precisar provar a si mesmo. Espero que nesse processo ele possa contar com apoio dos seus, na recuperação de um acidente infeliz, que acontece tanto no futebol e em outros esportes, e espero que os brasileiros que até agora não conseguiram enxergar isso, não tenham conseguido por estarem meio cegos por causa do desejo de ver o Spider passando trator que iria passar naquela luta infeliz.

Leonardo Ortegal é assistente social, mestre em política social, e escreve para O MIRACULOSO.

Comentários