Universidade A UNIVERSIDADE DO FUTURO

A UNIVERSIDADE DO FUTURO

02/05/2012 14h58

Peço licença para dedicar este texto a duas pessoas miraculosas, de nossa comunidade, Diogo Ramalho e Brunna Guimarães, gente valente e talentosa, que estão a `“dar à Luz“ uma menina, Cecília. Penso no futuro, penso na Universidade que será herdada por Cecília, em mais duas décadas.

A discussão desses fatos pessoais parece imprópria no plano acadêmico, político ou até mesmo em meio aos encontros cotidianos, de trabalho, de produção. Esses são planos “públicos“, onde as questões privadas não devem ser tocadas ou expostas. É paradoxal, pois a textura do público deve, necessariamente, ser feita de nossas idiossincrasias individuais de nossos desejos, valores e atitudes. Nós transformamos as coisas concretas, as experiências concretas e cotidianas em coisas abstratas, em arquiteturas que nem lembram mais os seus humildes começos – e esse é o sentido da palavra “humildade“, que tem a mesma raiz de “humus“, solo. A humildade é a referência comum a esses dois mundos, o público e o privado!

Na Universidade, somos orgulhosos de nossa capacidade de abstrair. “Academia“ é quase sinônimo de “lugar abstrato“, de lugar de abstrair, de produzir a compreensão das essências das coisas. Quando falamos, muitas vezes com enorme reverência, da Academia, da Universidade, falamos de um lugar que se dedica a isso – mas que não pode ser confundido com as “essências“ que estuda. Essa confusão é tão comum que as pessoas pensam que a Universidade é “essencial“, e não é. A Universidade pode até mesmo perder a noção do que é essencial com impressionante rapidez e eficiência. A Universidade tem que provar que é essencial através das transformações que comanda. Se não comanda nada, se impede transformações, não é mesmo essencial.

Isso é dito, introdutoriamente, porque os estudantes com que converso em minhas aulas, me chegam SEM acreditar que a Universidade estude mesmo a essência de qualquer coisa. Rapidamente, os nossos estudantes se desencantam com o que vêem. Parece que nós, acadêmicos, estudamos tudo, MENOS o essencial. Por exemplo, se entendemos que a Universidade (como a de Brasília) tem como fundamentos o Ensino, a Pesquisa e a Extensão, isso tem que ter sentido, deve ser coerente, ou não estamos a entender os nossos próprios fundamentos. Há coerência no “tripé“ da Universidade?

Constatamos, espantosamente, que o Ensino não se beneficia da Pesquisa. O “Reino da Pesquisa Séria“ se situam nas pós-graduações, que não se comunicam nem respeitam as Graduações, como no caso da Arquitetura e Urbanismo da UnB – e em outros cursos. Pior, nem a responsabilidade “profissionalizante“ das Graduações é respeitada no presente estado das coisas. Se a pesquisa deve ser APLICADA, essa concepção de “aplicação“ não se estende aos cursos de graduação. Na Pós/Pesquisa, a lógica nunca bate com a Graduação/Profissão. São mundos à parte.

Na verdade, a Pesquisa implica em várias formas de remuneração, de premiação, de êxito, que o Ensino, nem de longe oferece. Desse ponto de vista, “ensino é sacrifício“, é atividade de um baixo clero de professores, de um operariado universitário, mal remunerado e que tem suas chances de progresso (até mesmo como pesquisadores) bloqueadas por espertalhões no poder.

Temos que examinar o que chamamos de “Pesquisa“ com urgência e seriedade, pois, caso a caso, a racionalidade de seus resultados e do prestígio associado não apresentam uma correspondência verdadeira. Na área da Arquitetura e Urbanismo, temos um exemplo extraordinário: um grupo de pesquisa que tem como tema a Área Central de Brasília, onde trabalha por quase TRÊS DÈCADAS, recebendo generosos recursos do CNPq, de Fundos de Amparo diversos, por todo esse tempo, sem que tenha resultado em qualquer resultado nos padrões de gestão urbana dessa mesma área central. Influência ZERO. Nem sequer são citados de forma decisiva no Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília. Contudo, é impossível negar a importância dessa pesquisa. Assim, devemos concluir que determinadas pesquisas podem nunca passar de um mero ritual, que mantém como REFÉNS temas de importância.

“La Garantia Soy Yo“, diz a Academia quando aplica o golpe da pesquisa enganadora, cheia de charme mas sem resultados. Essas manobras podem prosseguir indefinidamente, graças ao apoio de pares que fazem o mesmo. A Academia “fiscaliza“ a pesquisa que ela mesma define, usando o argumento de que “a pesquisa pela pesquisa somente, tem validade“. No entanto, a luta por esse privilégio de pesquisar é uma luta por poder, não é uma luta por saber. Todos aqueles que demonstram a mais desacarada incompetência quanto a oferecer resultados condignos – no caso do urbanismo, de, pelo menos, promover uma crítica séria das políticas públicas urbanas – também lutam por bloquear o ingresso dos que oferecem caminhos alternativos para o tema.

Como os pesquisadores devem saber, a construção do conhecimento da ciência somente se faz pela refutação desses conhecimentos que a “pesquisa“ (entre aspas) oferece. No caso de nossa Universidade, é praticamente IMPOSSÍVEL refutar a picaretagem desses “grandes nomes“: a pesquisa faz parte de um pacto de poder. Trata-se do que se pode chamar de “Ciência dos Amigos“.

Voltando ao ponto inicial, a questão que levanto é: que Academia é essa que não hesita em paralisar o debate através do uso do poder? Qual é o futuro dessa Academia em que a ciência que justifica todo o prestígio da pesquisa é retardada pela incompetência desses “pesquisadores de repartição“ que agem como donos de currais universitários – assemelhados aos currais eleitorais dos politicos. Essa é uma UNIVERSIDADE SEM FUTURO.Dito isso, o que é mesmo uma UNIVERSIDADE DO FUTURO?

Texto e Ilustração por - Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB.

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