Universidade A ESTÁTUA DE JOHN LENNON NÃO FOI VANDALIZADA

A ESTÁTUA DE JOHN LENNON NÃO FOI VANDALIZADA

09/05/2012 17h21

O Correio Braziliense (08/05/2012) descobriu, chocado, que “vândalos” haviam pintado a estátua de John Lennon de rosa. Vandalismo! berrou alguém na editoria do CB para se fazer ouvir no campus da UnB.

(O Correio Braziliense parece entender tão pouco de campus, que escreve seu nome assim: CÂMPUS, com circunflexo na paroxítona. Mas essa é outra questão, que também tem seu fundo moral e estético: quer-se indicar o estrangeirismo e legitimar sua integração com essa acentuação esquisita. Muito melhor o pacificado “campus”, às antigas, sem esses escândalos todos).

Nós deveríamos, universitários e brasilienses, diariamente nos perguntar: “o que diabos está a fazer uma estátua do John Lennon (1940-1980) no campus da UnB?”Essa estátua é invenção do ex-Reitor João Cláudio Todorov, que aceitou candidamente a doação feita por sua persistente escultora, Ivna Duvivier. Essa estátua tem sua própria e longa história, marcada pelo consistente repúdio do público e pela absoluta “corujice” da autora sobre sua obra, seu pimpolho, o próprio John Winston Ono Lennon.

Há um problema fundamental com essa estátua, um problema de concepção. Não sei se é mesmo uma questão relevante, se vale a pena sequer ser percebida, mas... ESTÁTUA DO JOHN LENNON? Para mim, as palavras “estátua” e as do nome desse grande e rebelde artista não andam juntas, por princípio. Estátua, do meu ponto de vista, se fazia, em Roma, para retratar autoridades, pessoas vetustas, severas, cheias daquela autoridade arcaica e rancorosa. Estátua se fez de gente como Julio Cesar, de Napoleão Bonaparte, do nosso General Deodoro, de gente de outro tempo. Se há um troço absolutamente anacrônico é uma estátua de uma pessoa que simboliza o EXATO OPOSTO dessa turma da estatuária “das antigas”.

Não cabe na cabeça fazer a estátua de um inconformista, de um verdadeiro rebelde, de um demolidor de estátuas. É a pior das homenagens. Faz mais sentido produzir camisinhas da marca Bento XVI (pois o papa é pop, e merece a homenagem dos que amorosamente lutam pela paternidade responsável) do que homenagear um sujeito anti-sistema, anti-caretice, como o velho Lennon (que neste ano completaria 72 aninhos bem longe de lugares com estátuas e reafirmações da velha ordem, de lugares carimbados pela conformidade turística, pelo deslumbramento dos que nem sabem do que se trata quando o processo é civilizatório, mas fotografam tudo, de novo e de novo e de novo).

Essa estátua é uma desgraça para o campus, olhem o que estou dizendo. É o signo de nossa perversa contradição: a homenagem errada a quem detestaria ser homenageado assim, de forma tão cafona, kitsch. O ex-Reitor, ao que dizem, queria enaltecer “o espírito jovem”, através de John Lennon. Demonstrou que sua concepção de juventude é bem arcaica, a meu ver. Estátua do John Lennon, senhor Reitor?

Contudo, alguém pintou a estátua de rosa, e tudo mudou. Nunca o John Lennon ficou tão bem. Talvez seja esse o seu destino “enquanto estátua”: sofrer intervenções carinhosas e não-tão-carinhosas, amanhecer vestido de baiana, de Presidente da República, de Reitor da UnB, de soldadinho de chumbo, ou com uma bela melancia no pescoço.

A cada nova apresentação, torna-se mais jovem, mais parecido com essa gente que nasceu há pouco, e que não pára de recriar o mundo para poder entender o que se passa. De verdade, a gente só entende o que é sempre novo, porque acabou de inventar.

Texto e Foto por Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB para o Jornal O MIRACULOSO

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