Universidade Descomunalidade Universitária e as Eleições para Reitor da UnB - Versão 2012

Descomunalidade Universitária e as Eleições para Reitor da UnB - Versão 2012

19/05/2012 20h29

Aproxima-se o período eleitoral (ou “de consulta para a escolha”) do(a) futuro(a) Reitor(a) da Universidade de Brasília, e algumas tendências merecem ser discutidas, caracterizadas, postas à prova.

Os professores declararam o seu majoritário apoio ao próprio privilégio, de manter-se como o colégio eleitoral decisivo – ou, pelo menos, o mais poderoso em seu peso relativo de 70% da ponderação total da comunidade universitária. Os estudantes, o grupo mais numeroso nessa “comunidade”, permanece reduzido a 15% na ponderação dos votantes. Os funcionários ficam com os restantes 15%. Ferrem-se. Se virem. A minoria grita para se empoderar, como os símios da abertura da Odisséia no Espaço, do Kubrick.

Com esses números, somos qualquer coisa, MENOS UMA COMUNIDADE. Como o seu conceito indica, “comunidade” tem algo essencial em comum, algo eqüitativo, que respeita o princípio democrático da proporcionalidade dos grupos. Somos, no plano político e em outros planos, uma DESCOMUNALIDADE universitária.

DESCOMUNALIDADE UNIVERSITÁRIA?

Os professores têm toda razão em exigir respeito ao seu privilégio: a Universidade é uma instituição que está envolvida em negócios (conduzidos essencialmente por professores) polpudos demais para que grupos “sem responsabilidade” possam interferir, das Fundações de Apoio ao CESPE às representações universitárias em conselhos de governo. Trata-se de razão própria, algo distinto de “razão apropriada” e convincente, diante dos estudantes da Universidade.

OS PROFESSORES NÃO CONVENCEM OS ESTUDANTES?

Os estudantes estão convencidos de que os professores merecem mesmo essa primazia? O que os professores fizeram diante dos episódios de CORRUPÇÃO protagonizados pelas Fundações de Apoio? As Fundações de Apoio representam CORRUPÇÃO em forma evidente, CORRUPÇÃO como desvio de rumo e de função da Universidade Pública: seus negócios, em toda a sua extensão, devem ser, desesperadamente, ocultados. Pelo menos é o que parece: praticamente ninguém sabe como realmente funcionam essas Fundações de Apoio. Ninguém. Nem o Reitor. Muito menos o Conselho Universitário – pelo menos, oficialmente.

Isso faz lembrar daqueles defensores das Fundações de Apoio que protestam contra artigos como este aqui: não têm conteúdo acadêmico, não têm postura acadêmica, tais artigos e atitudes, dizem. Contudo, não se conhece uma só reflexão realmente acadêmica sobre esse assunto que divide mortalmente a Universidade: As Fundações de Apoio e toda a sua extensão, variedade, diversidade de atividades.

Não há um só estudo da roubalheira, do impacto ridículo que os MILHÕES DE REAIS, centenas de milhões de reais, têm sobre investimentos realmente acadêmicos como a produção de livros, o financiamento de livros e revistas realmente acadêmicos. A defesa das Fundações é tão opaca quanto a sua atuação. Mas não é “acadêmico” pedir que elas prestem contas. Certamente porque essas Fundações são tudo, mesmo “matéria acadêmica.

Os professores que defendem as Fundações de Apoio estão entre os que, ao final, defendem que elas atuem de forma opaca. Essa defesa, em alguns casos conhecidos, não ocorre sequer por corrupção, não ocorre porque esses professores estão a lucrar financeiramente com as Fundações de Apoio: ocorre por puro autoritarismo. Ocorre porque “professor não tem que prestar contas de nada a aluno, a funcionário, a ninguém”. Isso, sim, é CORRUPÇÃO.

Isso celebra a morte moral da Universidade Pública onde uma só Fundação de Apoio mantiver seus cascos. Pior: as próprias Fundações são “vitimadas” por essa atitude autoritária, que está encravada fundo na alma da própria Universidade. É seu amálgama, é sua estranha união que deve ser examinada.

A UNIVERSIDADE PÚBLICA ESTÁ MORALMENTE MORTA – OU GRAVEMENTE FERIDA?

O Reitor, como foi magnificamente demonstrado por Timothy Mulholland, é o grande penhor dessa desigualdade entre “professores e o resto”: O Reitor regula o padrão de transparência ou opacidade dos negócios universitários. Gostaríamos que fossem transparentes, mas não são. Por isso caiu o Reitor, por isso outros cairão: vale a pena o risco e o exílio. Queimam-se Reitores na fogueira das Fundações. Isso não acabou, mas de jeito nenhum. É muita grana em jogo.

Assim, a UnB entrou num caminho novo e esquisito, desde João Cláudio Todorov (Reitor da UnB no período de 1994-1998), de apostar em negócios arriscados, que envolvem a captação de recursos que, em tese “beneficiam a Universidade”. Essa é uma cláusula quase religiosa, pois precisamos de uma fé cega para acreditar nela.

Na verdade, quando entra dinheiro na UnB para melhorar as condições COMUNS de estudos, de trabalho, de pesquisa, de convívio, trata-se de grana federal, pública, ministerial. Até hoje as Fundações de Apoio captaram CENTENAS DE MILHÕES DE REAIS que não viraram livros na quantidade contratada e exigida pela Universidade. Por quê? Porque a Universidade não exige.

Captar recursos, pode. Já a prestação de contas ficou esquisita: é com o Reitor, o grande avalista. É por isso que o Reitor deve ser PESSOA DE CONFIANÇA DAS FUNDAÇÕES DE APOIO. É isso o que estaremos a eleger em data próxima, infelizmente: um ocultador de contas, um criador de opacidade – ou não?

QUEM É ESSE “REITOR DOS PROFESSORES?”

Na verdade, o Reitor dos Professores não é o Reitor dos Estudantes ou o Reitor dos Trabalhadores (Funcionários). É uma figura que tem se afastado de sua função pública e ingressado numa estranha função privada. É o quadro que se forma para a próxima eleição de Reitor da UnB neste ano de 2012.

Sem se propor à reeleição, o atual Reitor José Geraldo acabou por precipitar a liberação de forças contraditórias e destrutivas de sua própria gestão. Não conseguiu aumentar a transparência na UnB, apesar de escrever uma “Carta” por semana – que quase ninguém lia, pois quase nada continha de interessante. Foi, portanto o Reitor que mais produziu spam na História da UnB.

Provavelmente o grupo antigo (“timotista”) vai capturar o voto desses professores anti-paritarismo e pró-Fundações de Apoio. Vão tentar voltar com força, para completar esse ciclo de desmonte do caráter público da Universidade Pública. Não são grupo majoritário na UnB, mas podem se impor a jovens professores.

Na verdade, o esforço para bloquear transformações democráticas na UnB tem sido a paradoxal marca do período de redemocratização da própria Universidade.

Nenhum Reitor criou uma instância “ombudsman” consistente: todas as Ouvidorias foram inermes, que somente serviram para moderar as tensões internas, sem resolver questões de enorme gravidade, como as colocadas pela corrupção de dirigentes universitários.

A PIOR INVENÇÃO PÓS-TIMOTHY: A COMISSÃO DE ÉTICA A SERVIÇO DO REITOR?

O pior episódio, sem dúvida, é dado pela “Comissão de Ética” criada pelo Reitor Pro-Tempore Roberto Aguiar, uma instância persecutória e odiosa, formada por professores nomeados pelo Reitor, de sua confiança – uns capitães do mato destinados a punir os inimigos de seus amigos. A Comissão de Ética é um buraco negro da moral universitária. Nela, a UnB perdeu sua moral, e se tornou anti-cidadã, persecutória. Nossa Universidade não está a melhorar, não está a dar exemplo, nesse plano de gestão, ao contrário.

Os verdadeiros “ombudsman” da UnB têm sido seus estudantes.

E esse é o ponto fundamental do PARITARISMO: a criação de instâncias “ombudsman” na Universidade de Brasília, de forma precursora, de forma a que a formação dos estudantes esteja inequivocamente associada a uma gestão pública de alta qualidade, de alto nível. Ao mesmo tempo, instâncias “ombudsman” são instâncias de GESTÃO, que podem acompanhar tanto o desempenho real, em tempo real, do que se passa em cada curso, em cada sala de aula, em cada atividade universitária, de um ponto de vista qualificado: os estudantes são cidadãos consumidores desses serviços públicos universitários, e são aprendizes de práticas de gestão pública em toda a extensão das atividades universitárias.

Isso não é utopia, isso é um proposta para acabar com esse lamentável desvio de rota da UnB por todo esse período de democratização, paradoxal, contraditório, doloroso, desmoralizador.

Será que o novo Reitor, a nova Reitora terão a capacidade de criar instâncias verdadeiramente “ombudsman”, de forma paritária, descentralizada, ativa?

Duvido, se a desigualdade continuar vitoriosa, refletindo o pior da sociedade brasileira da atualidade: OPACA, AUTORITÁRIA, cheia de COBIÇA.

Texto e ilustração por Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB para o Jornal O MIRACULOSO

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