Universidade Memórias da Dita

Memórias da Dita

24/08/2012 12h52

Agentes infiltrados, assembleias vigiadas, professor picareta expulso pelos alunos e até negociações de Honestino com o prefeito de Brasília: um retrato da UnB nos idos de 1968

Logo após o assassinato do estudante Edson Luís durante um protesto no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968, o clima na Universidade de Brasília era tenso. Já no dia seguinte, os estudantes realizaram uma grande passeata pela W3 Sul, na qual tremulava uma bandeira do Vietnam do Norte. Agora, documentos produzidos por diversos órgãos da chamada “comunidade de informações” do regime militar em Brasília permitem um retrato pormenorizado daquela que era uma das maiores fontes de preocupação dos militares na cidade: a Universidade de Brasília.

Os documentos aos quais o Campus teve acesso faziam parte do acervo da Assessoria de Segurança e Informações da UnB (ASI-UnB), que se encontra hoje no Arquivo Nacional, no Setor de Indústrias Gráficas. Criada oficialmente em fevereiro de 1971 por uma portaria do então reitor Caio Benjamin Dias, a ASI-UnB era a ponta do aparato do SNI dentro da Universidade.

A passeata do dia 29 de março deixara um rastro de destruição pela cidade. Segundo relatório da ASI-UnB, sete ônibus da TCB e o prédio da Casa Thomas Jefferson foram depredados, além do incêndio de uma viatura policial e dos palanques armados para o desfile do dia 31 de abril (aniversário do golpe). O campus da UnB também havia sido declarado “Território Livre” pelos estudantes, e as vias de acesso foram interditadas com barricadas. Cerca de 100 pessoas foram presas e outras tantas saíram feridas.

O grau de precisão do acompanhamento feito sobre o movimento estudantil é assustador. Dias depois da passeata, na manhã de 1º de abril, o relatório descreve com minúcia a realização de uma assembleia estudantil, na qual Honestino e o grupo dirigente da Feub, ligado à Ação Popular (AP) teriam insistido na realização de uma nova passeata. Segundo o relatório, foi decido que “se faria a inauguração de uma praça dentro do ‘Campus’, com o nome de Edson Luís, com comício para operários e estudantes. Temerosos de uma ação policial, os estudantes se organizaram para fazer face a essas ameaças e estabeleceram barricadas com materiais diversos em todas as vias de acesso à UnB”.

Foi nesse contexto que “Na noite de 1º de Abril (...) o Prefeito do Distrito Federal, informalmente foi à UnB parlamentar com os estudantes, estes representados por Honestino Guimarães, Presidente da FEUB”, descreve o relatório. As autoridades temiam a realização de novas manifestações nos dias seguintes, dado o clima de indignação reinante entre os estudantes.

“O Sr. Prefeito, dispensando a Honestino o tratamento de ‘meu Presidente’, prometeu, em troca da retirada das barricadas e da não-realização de outra Passeata, suspender o cêrco policial estabelecido na periferia do ‘Campus’; liberação de todos os estudantes presos e a garantia de que não seriam presos; que compareceria ou se faria representar nas manifestações do dia seguinte, quando se inauguraria a Praça Edson Luís, além de contribuir financeiramente para a propaganda que se faria para um comparecimento da população a essas solenidades”. O relatório segue citando o depoimento de uma pessoa envolvida no movimento estudantil, segundo a qual “Essas promessas do Prefeito não teriam sido cumpridas integralmente, dando margem a uma profunda indignação por parte dos estudantes”.

José Antônio Prates era à época Presidente do Diretório Acadêmico de Arquitetura, o Dacau. Ele conta que as tentativas de diálogo entre a direção do movimento estudantil e as autoridades eram constantes. “O Prefeito de Brasília era nomeado [pelos militares], então ele era obrigado a cumprir um papel de paralisação do movimento estudantil. Eles faziam aquilo com cortesia, com gentileza, pra ficar mais fácil”, lembra-se Prates, hoje prefeito da cidade de Salinas (MG), pelo PTB. “Esse diálogo existiu por várias vezes, houve várias tentativas, mas não tinha frutos”, completa. Após a queda de Honestino na clandestinidade, Prates seria eleito presidente da Feub, em 1969.

Segundo Prates, Honestino não se fiava pelas conversas com os militares. “Ele não era uma pessoa fácil com o lado de lá, mas sabia que era importante negociar. Ele dizia ‘olha, nós vamos negociar, mas é pra comprovar que a conversa aqui não adianta nada’, mas ninguém deixava de conversar”.

Meses depois, no dia 06 de junho, Honestino liderou o “despejo” de um professor do Departamento de História da UnB, o ex-eletricista espanhol Roman Blanco, que teria inclusive apoiado o regime franquista na Espanha, segundo seus ex-alunos. “Esse cara nos deixava com muita raiva, por que ele promovia uma ação de desmoralização da esquerda dentro da Universidade, de forma muito violenta”, conta a ex-deputada distrital Maria José “maninha” da Conceição, aluna de Medicina na época do despejo.

“Naquela época ele já alimentava o jornal O Globo com matérias que pretendiam mostrar que nós da esquerda da Universidade vivíamos de festinhas, de drogas, de prostituição”, completa Maninha. Blanco também era acusado pelos estudantes de delatar os colegas envolvidos na luta contra o regime militar.

Segundo o relatório, cerca de 300 estudantes expulsaram o professor de sua sala no Departamento de História. Após isso, “A massa estudantil dirigiu-se à residência do Prof. Blanco, oportunidade em que fizeram o despêjo de seu domicílio, numa demonstração clara do funcionamento do ‘Terrorismo Cultural’ naquela Universidade”, descrevem os agentes. O professor teria sido levado pelos estudantes à presença do reitor de então, o médico mineiro Caio Benjamin Dias, “que foi atirado ao solo quando quis socorrer a vítima; mesmo assim cumpriu o ultimatum dos estudantes, que subverteram o princípio de autoridade, segundo depoimento do próprio Reitor”, narra o relatório.

O “ultimatum” dos estudantes foi entregue ao reitor por meio de uma carta enviada pela direção da FEUB, no dia 20 de abril, do qual o relatório reproduz um trecho. “Outrossim, comunicamos a Vossa Magnificência que caso não sejam tomadas de imediato providências nesse sentido, os alunos encarregar-se-ão de tomá-las”. A expulsão de Roman Blanco seria oficializada pela reitoria no final do mês de junho.

Antônio Ibañez, ex-reitor da UnB e professor do departamento de Engenharia Mecânica à época, conta que “Na invasão do apartamento dele houve sim uma intervenção da reitoria pra que a polícia não entrasse, para evitar qualquer bafafá. Houve uma acusação forte contra o Caio Benjamin por não ter expulsado os alunos ou permitido a intervenção policial nesse momento”. No relatório, Caio Benjamin é acusado leniência quanto à intervenção no Movimento Estudantil. “Durante todo o movimento estudantil de 1968, simulou servir ao Govêrno ao mesmo tempo que se colocava ao lado dos subversivos”.

A universidade de Brasília seria invadida mais duas vezes até o fim daquele ano, no fim de junho e em 29 de agosto. Em agosto, foram presas cerca de 50 pessoas, entre elas Honestino Guimarães e José Prates. As vias de acesso à universidade chegaram a ser fechadas por tanques do Exército, enquanto a Polícia Militar invadia as salas de aula e encaminhava alunos, professores e estudantes para a quadra poliesportiva próxima à Faculdade de Educação (FE). “Só para responder a um inquérito policial militar, o famoso IPM, a gente ficou uns nove meses preso”, conta José Prates.

Apesar de terem sido liberados meses mais tarde, Honestino, Prates e outras lideranças estudantis teriam de deixar a Universidade e partir para a clandestinidade. Na UnB, as coisas não ficariam melhores. Em dezembro de 1968 seria editado o AI-5, cassando as garantias individuais dos cidadãos, e em fevereiro de 1969 passaria a vigorar na UnB o Decreto-Lei 477, que permitia ao reitor expulsar sumariamente estudantes, professores e servidores acusados de manter atividades subversivas.

Em 1970, Maninha fazia parte da coordenação da Ação Popular em Brasília, e foi designada para ir a um Congresso da UNE, em Salvador. “Tive de ficar sentada num banco aguardando que alguém me encontrasse, era o primeiro ponto. Se essa pessoa não viesse, existia um segundo ponto e assim por diante. Eu aguardei o primeiro ponto, não apareceu ninguém, e eu fui para o segundo ponto. Quando cheguei lá eu ouvi um grito: ‘maninha!’. Era o Honestino Guimarães. (...) Foi a última vez que eu o vi”. Em 1973 ele seria preso mais uma vez, no Rio de Janeiro, engrossando a lista de desaparecidos do regime militar.

Big Brother à candanga

Em conjunto, as quase 300 páginas de documentos obtidos pelo Campus desenham um rico retrato da vida política da UnB na época, que às vezes chega a destoar do senso comum sobre o período. É o caso de um curioso informe do Comando Naval de Brasília, datado de abril de 1965. A fotocópia do relatório traz em letras datilografadas uma passagem curiosa na qual um militante político tenta aliciar um informante do regime. O documento relata que “Um estudante que se confessou comunista, em conversa com um nosso informante, tentou aliciá-lo, amaciando-o com um oferecimento de emprego no Banco Nacional de Habitação”. O uso de agentes infiltrados nas universidades era prática comum do regime. “Dentro da sala de aula a gente conhecia os alunos, mas tinha alguns alunos que ingressavam por vestibular ou como alunos especiais, e esses você não sabia se eram ouvintes, ou o que eles eram”, diz o ex-reitor Antonio Ibañez, professor do Departamento de Engenharia Mecânica desde 1967. Segundo Antonio Carlos Carpintero, aluno de Arquitetura na época, a reitoria facilitava a imersão desses agentes, fornecendo até mesmo carteirinhas falsas.

Quase todos os momentos da vida dos “suspeitos” eram seguidos de perto pelos homens do SNI. Em 1977, o movimento estudantil da UnB voltava a respirar depois dos “anos de chumbo” do governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). O AI-5, vigente desde 1968, seria revogado no ano seguinte. Nesse contexto, os estudantes organizaram a primeira grande mobilização pós-AI-5, uma greve estudantil que duraria mais de dois meses e interromperia boa parte das aulas da UnB. Chama a atenção nesse episódio o esmero dos militares em vigiar o movimento grevista. A ASI-UnB produziu um relatório de mais de 100 páginas sobre o assunto, no qual estão descritas, hora a hora, todas as movimentações dos estudantes grevistas. A cada assembleia estudantil, os agentes da “comunidade de informações” produziam uma ata completa, listando o nome dos oradores e as opiniões expressas em suas falas, bem como as decisões tomadas.

Em outro documento sobre esta greve de 1977, a ASI-UnB vigia de perto os movimentos de um show de MPB organizado pelos estudantes na entrada da Ala Norte do ICC, pela manhã. Os nomes de todos os artistas que se apresentaram foram listados no relatório da ASI-UnB. Assim, o relatório informa que um dos estudantes “deu prosseguimento ao Show cantando as músicas ‘para não dizer que não falei de flores’ (Geraldo Vandré), ‘Asa Branca’ (Luiz Gonzaga) e outras também conhecidas do informante”. Um outro estudante “apresentou-se tocando dois instrumentos ao mesmo tempo (Gaita e Violão) – foi bastante aplaudido, ao final”. No ano seguinte, os informantes do regime acompanhariam com interesse a encenação de uma peça teatral ala Norte do ICC, “por parte de estudantes da Vanguarda do ME, intitulada “A FARSA DO CAPITÃO NO REINO DA OPRESSÃO”, ridicularizando a figura do Reitor e caracterizando-o como opressor dentro da UnB”. O reitor da época era o Capitão de mar e guerra José Carlos de Almeida Azevedo, que comandou a universidade entre os anos de 1976 e 1985.

O controle da “comunidade” sobre os movimentos dos inimigos do regime beirava a paranóia. Em um dos documentos assinados pela Agência Central do SNI em Brasília e datado de outubro de 1979, lê-se o seguinte: “Em atenção ao contido no documento de referência, esta Agência Central, sobre uma conversa ouvida, em julho de 1979, à beira da piscina do Iate Clube de BRASILIA/DF, conseguiu apurar o seguinte:”. O relatório segue enumerando o nome, profissão, local de trabalho, e mesmo o endereço de um militante ligado ao Partido Comunista, acusado de ser “O articulador de uma possível agitação na Universidade de Brasília (UnB), cujos detalhes teriam sido acertados numa reunião, no dia 27 Jul 79, naquela Universidade”.

Trinta caixas de arapongagem

Os arquivos do acervo da ASI-UnB foram obtidos pela primeira vez por uma comissão de anistia nomeada pelo então reitor Cristovam Buarque, em 1988. Em 1990, os documentos foram transferidos para o Centro de Documentação da Universidade de Brasília, o Cedoc-UnB, totalizando cerca de trinta caixas de arquivo. “Além dos relatórios, o acervo da ASI-UnB tinha boletins de ocorrência, objetos e documentos pessoais apreendidos, livros, panfletos. E até material pornográfico apreendido pela polícia”, conta Maria Goretti Vieira Vulcão, funcionária do Cedoc-UnB à época e hoje coordenadora do projeto Pró-Memória, ligado ao Departamento de História da UnB. No auge, o acervo reunia cerca de 30 caixas, entre relatórios e materiais apreendidos.

Em 2007, os arquivos foram requisitados pelo governo federal, sendo enviados à Coordenação Regional do Arquivo Nacional em Brasília. Nesse intervalo, o CEDOC UnB realizou um trabalho de tratamento e catalogação do acervo. Maria Goretti informa que a maior parte desse trabalho foi desconsiderada pelo Arquivo Nacional durante a transferência dos arquivos, dificultando assim futuras buscas. “No Cedoc-UnB não havia uma política de acesso aos documentos, embora eles estivessem disponíveis”, diz a pesquisadora. Ela também não descarta a possibilidade de que os arquivos tenham sido violados antes de serem entregues ao Cedoc-UnB.

Funcionando no prédio da reitoria (que à época ficava em um dos prédios da atual Faculdade de Educação), nas dependências da Assessoria Jurídica da UnB, a ASI contava com apenas um chefe e um auxiliar administrativo. As informações e fotografias eram obtidas pelo Serviço de Proteção ao Patrimônio (SPP) da UnB e por outros órgãos do aparato repressivo, e então centralizadas na ASI. Dada a importância política da UnB na época, o aparato de inteligência começa a se estruturar na Universidade antes mesmo da criação da ASI-UnB. Um dos documentos obtidos pelo Campus é um informe sobre as agitações políticas de estudantes e professores da universidade, produzido em abril de 1964.

Segundo Rodrigo Patto Sá Motta, historiador e professor da UFMG, os arquivos da ASI-UnB estão entre os mais bem conservados das ASIs universitárias, juntamente com os da UFMG. Há casos nos quais suspeita-se que uma parte ou até a totalidade dos documentos tenha sido destruída, como no caso da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A legislação que regia o Sistema Nacional de Informações (SNI) incluía um rito burocrático para a destruição dos documentos sigilosos, mas este nem sempre era cumprido.

Para produzir os documentos, o aparato repressivo se utilizava também de agentes policiais infiltrados, às vezes até mesmo alunos da universidade.

Segundo Carpintero Antônio Carlos Carpintero, aluno do curso de Arquitetura na época, o movimento estudantil tinha seus próprios meios para lidar com o aparato de inteligência. “Uma das formas que a gente utilizava, às vezes, era de jogar uma determinada informação, para certa pessoa, a fim de provocar uma determinada reação [do regime]. Se acontecesse, ficava provado que a pessoa era infiltrada. Aí começávamos a vigiar, a ficar de olho.” Além disso, alunos que tinham prestado o serviço militar ou participado do Curso de Formação de Oficiais da Reserva (CPOR) ajudavam as lideranças do ME a entender os procedimentos do aparato de segurança, a fim de se prevenir.

por André Shalders, para O MIRACULOSO

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